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14 Pinos Menos Torta

14:18Huiolla Ribeiro




        Era quase uma da tarde, quando minha mãe sismou que precisava lavar meu cabelo, e podia ser apenas um banho normal, com espuma de shampoo nos olhos e risadas pra lá e pra cá, mas aí minha mãe reparou o meu corpo desengonçado. Havia um "ovo" na minha coluna, meu corpo estava torto e estranho. Minha mãe chamou minhas tias e minha irmã pra ver se não era neura nossa. Marcamos um médico no posto de saúde perto de casa, a primeira consulta foi com uma pediatra, ela disse que aquele tipo de doença era rara até então, e me mandou marcar com um ortopedista (médico que cuida dos ossos). Marcamos então a outra consulta e esperamos.
        Depois daquele dia comecei a me sentir mal quanto ao meu corpo, me sentia como um E.T intruso no planeta Terra, me sentia estranha e sem lugar, foi assim durante três meses, até o dia da consulta com o ortopedista. Sentada na sala de espera ao lado da minha mãe, com todas quelas paredes brancas me sentia ainda mais desconfortável, as cadeiras eram duras e de plástico, e a cada minuto me sentia mais ansiosa,  via médicos e pacientes indo de lá pra cá, e de cá pra lá, ouvia vários nomes serem chamados, menos o meu, o tempo simplesmente não passava. Até que finalmente ouço alguém dizendo: É.. u.. uí.. uioll... Um pigarreio. Era o meu nome, quando entrei na sala havia um médico de porte médio, gordinho, de cabelos pretos e um pouco grisalhos e óculos, devia ter seus 56 anos. Atrás de sua mesa havia uma maca e alguns coletes de plástico que tinha um formato que encaixaria em qualquer tipo de corpo e dois ferros altos na frente e atrás, uma mesa, e um "quadro" meio iluminado. Na sua mesa alguns vários papéis e envelopes. O médico abriu um sorriso, perguntou o meu nome, e perguntou porque o procuramos, minha mãe contou sobre o que ela havia observado em mim. O médico me mandou levantar e levantar a blusa até uma altura em que ele pudesse ver minha coluna. Ele pediu uma radiografia para ver melhor o que eu tinha. Depois de tirada a radiografia e avaliada pelo médico foi confirmada a teoria inicial do médico: Eu era a sua nova paciente com escoliose, com 25º de curvatura na coluna. Eu teria que passar por mais avaliações e consultas, mas uma coisa estava certa: Eu teria que passar por uma cirurgia grande e delicada na coluna vertebral. Foi um grande choque, tanto pra mim quanto pra minha mãe. Esperei pelo momento em que o médico dizia "calma, é uma brincadeira, tome aqui esse remédio, tome ele três vezes ao dia durante um mês e você estará curada". Mas ele não disse. Ele contou sobre o colete que vi quando cheguei ao consultório, poderia ser uma possibilidade, poderia parar a minha coluna como ela estava por algum tempo, mas nunca cura-la era um método pouco usado que seria abolido logo. Não era uma escolha não fazer a cirurgia, eu poderia quebrar a qualquer momento, eu deveria deixar de praticar esportes, não poderia mais cair, nem trombar, nem mesmo usar salto alto, ou seja, viveria numa bolha. 
       Depois disso não conseguia ouvir mais nada, meu coração estava disparado, comecei a ter um bilhão de pensamentos conturbados que se atropelavam e faziam minha cabeça latejar. No caminho pra casa, depois da consulta, só queria chorar. Minha mãe dizia que aquilo era um absurdo, e que nós procuraríamos outro médico. E fomos atrás do tal "outro médico" e ele disse a mesma coisa. Bisturi. A gente sempre pensa que coisas ruins acontecem por aí, mundo a fora, mas nunca com a gente. Foi um choque. Era uma pessoa muito fechada, muito tímida, mas nunca deixei de sorrir nem de fazer graça pra fazer com os outros rissem, fiz de tudo pra não deixar que a situação interferisse no meu humor, meus pais e minha família estavam preocupados de mais, ficar chorando e emburrada pelos cantos só iria piorar a situação. Preferi encarar tudo numa boa, fazia graça da situação, e agia como se fosse a coisa mais normal do mundo. Dei milhões de gargalhadas quando o que eu mais queria era chorar, afundar minha cabeça no travesseiro e não ouvir nem ver mais ninguém até cair no sono e acordar na manhã seguinte com a certeza de que tudo era um sonho. Ou pesadelo. Aquilo não tinha fim, era angustiante.

      Com o passar do tempo a rotina da minha vida era ter superproteção vinte e quatro horas por dia, ir ao médico e fazer radiografias digitais, e voltar ainda mais assustada a cada consulta. Dois anos se passaram, e a rotina era a mesma, minha coluna já estava em 35° de curvatura, ficava cada vez mais visível, passei a usar roupas mais largas pra que ninguém ficasse perguntando sobre o que eu tinha quando eu saísse nas ruas, naquela altura a escola toda já sabia do meu caso, minha família inteira estava ciente da situação e do que poderia acontecer. Os riscos também aumentaram, eu poderia ir deitar e acordar quebrada. Passei a ter medo de dormir, chorava baixinho toda noite pra que ninguém se incomodasse ou me ouvisse. Não queria mais dormir, a noite era a pior hora pra mim, os pensamentos ficavam cada vez piores e mais intensos, tinha medo deles também. Dormia todas as noites sem me dar conta, acordava com medo, avaliava cada centímetro do meu corpo até que eu pudesse me sentir inteira. Me olhava no espelho todo dia de manhã pra ver se alto havia mudado em mim, sempre com esperança.

      Em um dia qualquer fui pra escola, sem muitos materiais pois não podia carregar peso. Tive aulas normais, matemática, português geografia, algumas risadas intrigas bestas, duvidas, soluções e o sinal pro recreio, bem na hora que a fome bateu. Estava andando sozinha pelo patio e uma nova colega da classe veio correndo em minha direção, ela era novata, não sabia do meu caso, dos meus problemas e nem de minhas limitações, por isso não a culpo pelo o que aconteceu. Ela pulou tão forte que eu cai no chão. Alguns garotos riram da minha cara, e pararam em seguida quando viram a minha cara de choro. Eu me levantei e só conseguia dizer que não podia cair. Minhas amigas chegaram na hora, e me levaram pro banheiro para não haver tumulto. Em segundos a escola toda estava na porta do banheiro feminino perguntando quem fez aquilo comigo. Todo mundo queria bater na pobre novata. Foi um acidente. Saí chorando sem responder. Minhas amigas comunicaram a escola e então meus pais. Fiquei sentada na beirada de um canteiro de flores perto da entrada na escola, com algumas pessoas que se tornaram meus amigos, a escola toda passou por mim, todos perguntavam como eu me sentia, quando finalmente me acalmei, uma professora de história - a que eu mais gostava e a que mais gostava de mim, e que tinha uma cara de rabujenta - me levantou e pediu pra ver minhas costas e disse que não havia nada lá. Eu quase, quase acreditei nela. Meu pai chegou na escola meio zonzo e cambaleando, ele estava mais assustado que eu. Estava do outro lado da cidade e chegou lá tão rápido como se estivesse a dois quarteirões. Da escola fomos direto pra casa, pegamos minha mãe  alguns documentos, e radiografias, troquei de roupa e fomos a caminho do pronto socorro mais próximo. Fui como caso de urgência, em quinze minutos já estava sendo atendida. Era estranho como todos os médicos olhavam pra minha radiografia como se estivessem vendo algo particular, minha radiografia faziam vários médicos saírem do serviço para se juntarem e apreciar algo como se fosse uma obra de arte, todos com surpresa. O médico me avaliou e disse que estava tudo bem. Comecei a chorar mais uma vez - chorar estava se tornando algo cada vez mais comum pra mim. Ele me perguntou qual era o meu medo, e eu disse sem pensar: Fazer a cirurgia. O médico suspirou e disse que eu teria que combater aquele medo. Não tinha pra onde fugir. Era o único jeito de eu poder levar uma vida normal de novo, era melhor passar por aquilo tudo agora enquanto meu corpo ainda era jovem do que com mais idade. A recuperação pra mim seria bem mais fácil do que pra alguém de 60 anos. Me recusava a pensar que se eu deixasse isso pra depois poderia ter problemas mais graves mais tarde. 
     Aquela consulta me fez pensar, e até aceitar algumas coisas. Meus pais por outro lado queriam encontrar outra forma de eu ser curada sem ter que me cortar. Fui a várias igrejas e centros. Tomei remédios naturais, banhos de melancia, passei a ir em igrejas evangélicas aos domingos, andar com folhas de papel branca ungida nas costas, a dormir com roupas e lençóis brancos. Um dia, um pastor da igreja, pediu pra que eu dançasse ao som de um louvor em frente a toda igreja, e eu, por ser muito tímida, me recusei. Depois de muito insistir ele disse que eu não seria curada. Fiquei com tanta raiva naquele dia, nunca vou me esquecer das feições dele dizendo aquilo pra mim, as palavras dele vinham como bombas em minha cabeça. Recebi tantas orações, minha família, amigos, e amigos da família pediam a Deus por mim sempre. Nunca vou me esquecer disso, jamais.


     Minha cirurgia foi marcada para o dia 18 de outubro de 2010. A despedida na escola foi muito triste, chorei horrores, sabia que iria sentir muita falta dos meus amigos e da escola. Normalmente as pessoas dão entrada para internar um dia antes do dia marcado. Pedi aula e matérias importantes da escola,   perdi ver o garoto de quem eu gostava, perdi minha tão sonhada festa de quinze anos que seria dali a um mês. Quando cheguei ao hospital, era uma segunda-feira fria de primavera. Dei entrada tive um turbilhão de sensações, foi horrível. Meu estômago dava voltas e mais voltas. Fui levada até o meu quarto, fiquei na maca perto da janela. Lia revistas durante a tarde e anoite, quando não estava lendo passava o tempo tentando acalmar a mim e a minha mãe, fiquei trocando mensagens pelo celular com os meus amigos - e até me dei conta que o garoto que eu gostava não dava a minima pra mim quando soube que ele nem fazia ideia de que eu estava no hospital.
        A pior parte de ter que ficar no hospital era com certeza a sopa do jantar, tinha queijo, ou soja, ou, sei lá o nome daquilo, só sei que era horrível e me dá náusea no estômago até hoje só de pensar. Tomei um banho no hospital e comecei e pensar em como seria a minha vida se algo desse errado, isso me deprimiu, então tratei de pensar em como seria a minha vida com alguns pinos na coluna. Eu seria barrada no banco? Daria pra ver ou sentir aquelas coisas dentro de mim?  E se eu enferrujasse? Eu faria barulho quando me inclinasse? O pensamento me fez rir durante o banho. Passei o resto da noite conversando a minha mãe que teria que dormir no sofá do lado da cama. 
      O dia começava cedo. Seis da manhã. Era mais uma vez a hora do banho, e da espera. De novo. Era como um dejavú. Salas brancas, dessa vez sem cadeiras de plástico duras. Enfermeiras, médicos e pacientes passando de um lado para outro, mas dessa vez não tive que esperar muito. Fui a primeira a ser chamada. Quis fugir, me esconder, meu estômago dava voltas e voltas toda vez que ouvia o meu nome, foi assim até chegarmos no segundo andar. A sensação era horrível, parecia que meu coração iria parar. Clamava pra que eu acordasse em minha casa, em minha cama e tudo fosse só um sonho. Mas não era. Respirei fundo, me despedi de minha mãe e chorei, chorei pela ultima vez. Por medo, receio, talvez por deixar a minha mãe daquele jeito naquela sala, talvez por ter continuar sem ela, talvez por não saber como essa história terminaria. Acho que foi o pior momento do mundo pra mim, doeu mais que qualquer coisa
    . Respirei fundo e tentei ser o mais forte que tudo, coloquei um sorriso no rosto me virei e fui. Prestei atenção em cada passo que dei até a sala de cirurgia, fiz questão de me lembrar de cada movimento de cada músculo do meu corpo para o caso de algo dar errado eu poder me lembrar da sensação. É estranho como damos valor pras coisas simples quando corremos o risco de perde-las. Quando entrei na sala havia alguns médicos algumas enfermeiras e o anestesista, que era muito simpático  Depois que me deitei sobre a maca ele me explicou como seria o procedimento, sobre como funciona a anestesia e sobre o que pode ou não acontecer. O médico me mandou concentrar em mexer a perna quando ele pedisse pra eu mexer, no entanto eu estaria desacordada nesse momento. Fiquei mais tranquila naquele momento, conversava e ria como se nem fosse passar por tudo aquilo, nem parecia eu. O anestesista enfiou uma agulha no meu pulso na mão direita e em cima do meu pulso na mão esquerda, em seguida ele me perguntou se eu gostava de leite. Respondi que sim sem entender. Ele tinha um liquido branco num pote bem pequeno nas mãos. Era o liquido que me deixaria sem dor, e desacordada. depois que ele aplicou isso no saquinho do soro ele colocou o ar sobre meu nariz e boca pra que eu dormisse, a minha visão se mexia, era como se eu estivesse parada e correndo ao mesmo tempo. Depois disso, só me lembro de um grande borrão.
       Acordei cinco horas e meia depois sem saber o que tinha acontecido, tinha um senhor, provavelmente um médico ou um anjo, ele respondeu cada uma de minhas muitas perguntas muita muita paciência  esperando alguns segundos antes de responder cada uma delas. Estava tudo bem comigo, não acordei entubada, nem com dor, me sentia normal, e de bom humor. Poucos minutos depois as enfermeiras chegaram para me levar pro CTI, um procedimento comum já que perdi e precisei receber muito sangue. no corredor vi meu pai, minha mãe e uma tia esperando por mim ou por notícias, eu só conseguia gritar que havia crescido 2cm. No CTI, não conseguia parar de falar, estava elétrica, pedi pra comer bala e beber água, e até liguei pra minha irmã que estava em prantos em casa. Fiquei feliz por ouvir a voz dela.

          Não senti dor em momento algum, nem antes, nem durante e nem após a cirurgia. Passei o resto da semana no hospital, fazendo xixi na comadre e virando de um lado para outro, com um incomodo muito estranho. Ainda tinha medo de dormir, só queria minha mãe, só queria ir pra casa.
          Quando finalmente a sexta feira chegou, as enfermeiras deram as ultimas instruções para os meus pais, sobre como me ajudar a levantar, a me virar, a me dar banho, a como me ajudar a andar. Achei incrível quando consegui me sentar, meu corpo estava pesado e estranho, parecia que não era meu. Minha mãe foi de encontro com um dos médicos para pegar os remédios pra dor que eu precisaria tomar e também minha radiografia, enquanto minha tia ficava comigo esperando por ela no quarto. Minha mãe voltou com os olhos arregalados, tinham me receitado morfina pra dor, o que era o mesmo que dizer que eu morreria de tanta dor, o motivo dos olhos arregalados também seria pelo tamanho dos pinos que estavam nas minhas costas que a minha mãe acabara de ver em uma das radiografias tiradas após a cirurgia. Fiquei assustada por ela.
          Logo o médico chegou pra me dar alta. Sai do hospital andando, era meio difícil  meus passos eram curtos e meu corpo parecia pesado de mais pra alguém do meu tamanho, me sentia fraca e vulnerável. O caminho de casa foi longo e difícil, parecia que nunca iriamos chegar, mas chegamos. Ouvi o barulho do pessoal vindo pra fora, minha irmã na porta de casa, e minhas tias um pouco mais a frente. Gritaria e várias "Sabia que daria certo", "Que bom que você voltou", "senti sua falta", "tá tudo bem? Como você está se sentindo?". Voltar pra casa foi a melhor sensação do mundo, uma semana pareceu mais um mês ou um ano. Foi estranho acordar e não ver meus irmãos, primos e tios.

       No começo foi bem dificil pra mim, dependia dos meus pais pra tudo, desde ir ao banheiro até pentear o cabelo. Não conseguia levantar meus braços ou virar na cama sozinha. Sentar precisava de toda uma técnica, me levantar da cama era uma tarefa bem dificil, o banho era complicado, tive que me reeducar, e reaprender a fazer tudo de novo. Era como se eu voltasse a ser criança de novo. Não senti dor nem por um segundo, portanto não precisei de remédios ou da morfina. Com o tempo o que me deixava realmente estressada, era ter que ficar dentro de casa levantando e sentando, virando de um lado para o outro. Em uma semana ja sentava na frente do computador, e foi aí que percebi o quanto eu era querida. Assim que mudei meu statos para online choveu janelas, choveu pessoas me chamando e perguntando quando eu estava e quando poderiam vir me visitar. Foi emocionante pra mim, não sabia que era tão importante pra tanta gente. A partir daí  passei a receber visitas todos os finais de semana, dos amigos, primos, tios e tias, parentes próximos e distantes, gente que não via muito tempo e quem eu queria ver todos os dias, recebia flores, chocolate e presentes. A cada visita, podia rir contando minha história e minha experiencia, percebi que aquilo tudo não era tão ruim e até rendia boas risadas. Uma semana antes do meu aniversário, meus amigos da escola vieram aqui em casa e prepararam em segredo pra mim, junto com a minha mãe uma festa surpresa de 15 anos - sabia que a minha mãe não deixaria passar em branco. A surpresa furou por causa de um amigo, o que foi legal porque pude sair pra comprar meu vestido. Foi engraçado ir ao shopping, estava dura e a coluna inchada, andava rodeada pelos meus pais pra que eu não caísse ou alguém trombasse em mim, parávamos pra sentar a cada 15 passos porque me sentia muito cansada, a coluna ainda pesava. Vi um vestido perfeito branco, e uma loja meio cara, então fiquei só na vontade. Não encontramos nada naquele shopping. No dia seguinte fomos em outro perto de casa e encontramos um na primeira loja que entramos, compramos um sapato baixo, uma rasteirinha toda preta e pronto, fim das compras. Parece bobagem mas aqueles dois dias no shopping e compras e saindo daquele ambiente da minha casa fez um bem enorme pra mim, passei o resto da semana feliz. 
      Meu aniversário caiu num domingo, mas a festa foi no sábado, minha família e amigos estavam lá, uma tia fez um bolo de três andares com chantili branco e rosa e algumas flores, na mesa tinha bombons caseiros feitos pelas minhas tias que moram comigo e foi tudo simplesmente perfeito, não tinha nada que pudesse me fazer mais feliz naquele momento. Ganhei muitos presentes, tirei muitas fotos, do meu jeito consegui me divertir. 
        É estranho ver a si mesmo desenvolvendo, reaprendendo e voltando a ser como era, pouco a pouco minha vida estava voltando a ser a mesma. Não conseguia me curvar, abaixar ou me mexer direito, me sentia frustrada e limitada. O ano letivo estava quase no fim, e depois de muito insistir com a minha mãe e de mostrar pra ela que me sentia bem o suficiente para assistir uma semana de aula, ela se convenceu. Fui pro banho, dessa vez sozinha. Escolhi meu próprio Jeans, peguei minha blusa de uniforme na gaveta, só precisei de ajuda para pegar o tênis que estava muito baixo e eu ainda não consegui abaixar até tal altura. Quando terminei de amarrar o cadarço ri sozinha em meu quarto. A forma que encontrei de amarrar os cadarços sozinha deixava o laço torto pro lado. Percebi que seria assim daqui pra frente, conseguiria alcançar tudo o que eu queria, mas de forma diferente que das outras pessoas. Eu chegaria lá, mas dentro de minhas limitação, era algo que eu precisava entender e aceitar. E entendi. E também aceitei. 
      Foi ótimo voltar a escola. Minha carteira estava vazia, no mesmo lugar de sempre. Meus amigos surtaram quando me viram eram muitos abraços e pouco tempo pra matar a saudade. O dia terminou bem, a semana foi ótima e produtiva. Logo o mês acabou, e em seguida o ano. A cada dia que se passou encontrava novos motivos pra continuar firme e forte. Fui me redescobrindo pouco a pouco, descobri até onde eu poderia ou não chegar e o que eu podia ou não podia fazer. Não era uma inválida, ou uma ilimitada nem um E.T. perdido no planeta errado, eu era só eu. Era eu menos torta, com 14 pinos na coluna. Não apitei ao entrar no banco, não senti meus parafusos, não senti dor, não servi de para raios.
        No ano seguinte, ganhei minha tão sonhada festa de 15 anos - apesar de completar 16 anos. Tive meu baile, minha festa com tudo o que tinha direito. Usei aquele visto que vi no shopping mas não pude comprar, ganhei um anel de presente, e meu sapatinho de cristal não tinha salto. As minhas amigas debutantes fizeram uma homenagem pra mim e dançaram a valsa de rasteiras assim como eu. A festa rolou até as 4 da manhã, foi melhor do que a dos meus sonhos. 
      
   

         Hoje, dois anos após a cirurgia, tenho uma vida perfeitamente normal, saio, vou a festas, brinco e rio, sorrir sempre.  Vez ou outra encontro uma pedrinha no meio do caminho que com um pouco de esforço consigo tira-la de lá. Meu tênis ainda tem o nó torto, mas hoje consigo amarrar meu cabelo, ainda não pratico esporte e os parafusos são meus. E quer saber? Tenho muito orgulho deles. Sem eles ainda teria que usar roupas largas e ainda teria vergonha do meu corpo. Não corro mais risco de quebrar, não tenho mais medo de dormir, e não ligo se me perguntam porque eu ando tão reta ou porque não faço educação física. Sou uma garota como qualquer outra, posso fazer as mesmas coisas que alguém da minha idade faz. A diferença é que tenho uma história de luta e conquista, e claro, alguns parafusos a mais.

Gostaria de agradecer ao Dr. Luiz Olímpio, que além se der um excelente 
médico/ortopedista, ainda dá alegria força e coragem para seus pacientes. Obrigada por tudo o que fez por mim, se não fosse você poderia não estaria aqui hoje, contando a minha história.  Muito obrigada!


Imagens: Gheovana Rocha ©

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11 comentários

  1. Lindo texto!

    E um ótimo exemplo de que, na dor, também podemos crescer!
    =D

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  2. Eu vi de perto toda sua história, assistir todo seu sofrimento, mas vi tbm suas vitórias ( e essas são muitas). Me orgulho muito de ter uma irmã tão forte e determinada como vc.
    Seus parafusos na minha opinião foram mandados para vc apenas para que vc conhecesse a vc mesma, e o quanto você é guerreira.
    Me orgulho de ser sua irmã, e me inspiro com a pessoa que vc é, sua alegria de viver e sua força de vontade de vencer a todos os obstáculos.
    Te amo minha irmã !

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    1. Só fui tão forte porque tive pessoas como você, mamãe, papai, hans, enfim porque tive uma família que me deu tanto apoio e coragem. Vocês jamais me desampararam, jamais me deixaram cair. Vocês me deram motivos para sorrir. Vocês tiveram fé em mim, e com isso, eu aprendi a ter fé em mim mesma também, e principalmente tivemos fé em Deus. Só tenho a agradecer a todo mundo que esteve do meu lado nesta jornada. Obrigada por ser essa irmã tão maravilhosa que você é. Eu te amo muito minha irmã s2

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  3. Quase chorei por aqui!
    Não preciso nem dizer que, pela enésima vez, me senti uma pessoa honrada de participar de um sonho seu, de um momento tão importante da sua vida.
    Huíolla, você é uma guerreira, e me faz ter orgulho de poder trabalhar com sonhos, de ter tido a oportunidade de registrar o seu. Muito obrigada, linda!
    Um abraço enorme, e que a gente se encontre em muitos outros sonhos!

    Da sua fotógrafa,
    Gheovana. =]

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    1. Eu que agradeço a você por ter tornado o meu sonho real e eterno! Você não é só uma fotógrafa, é uma grande amiga! Te agradeço eternamente por tudo! Nos encontraremos em breve! Obrigada Gheovana!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Primaaa que lindo, nós não sabíamos do ocorrido até esse mês passado quando a mãe esteve ai em BH! Desejo toda felicidade linda, te adoro muito... beijos Mayara

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    1. já tem quase três anos! Graças a Deus correu tudo bem! Obrigada prima, tudo em dobro pra você. Saudades te adoro venha nos visitar! Beijos <3

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  6. moça nunca esqueça disso, com certeza te fez mais linda! Tudo de bom minha comadre!

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    1. JAMAIS vou esquecer! Situações difíceis, quando não nos derruba, nos deixa mais forte! Tudo em dobro loló ♥

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