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Tudo Certo, Como 2+2=5

21:03Huiolla Ribeiro



A garota do vestido azul que andava pela praça da saudade escondia segredos e mágoas. Ela se sentiu por tanto tempo dependente de uma frase, de uma pergunta sem resposta. Ela chorou, sentiu raiva e um aperto gigante no peito, tudo por causa de uma frase não dita por um garoto do sorriso bonito e da barba por fazer.

Ela tinha uma queda, ou melhor, ela tinha um precipício por ele. E as coisas iam de bom a melhor desde que uma eletricidade maravilhosa subiu do dedão do pé até o ultimo fio de cabelo deles, passando logico, pelo coração de ambos, e tudo o que foi preciso pra que isso acontecesse foi o olhar dos dois se cruzarem na cafeteria do Seu Jé.

O negócio dessa história é que tudo o que é bom de mais não pode durar pra sempre — não me julguem meus caros, essa é apenas a verdade da vida, e acreditem é melhor saber logo por mim do que ser pego de surpresa por aí — e outra parte dessa verdade, é que ninguém está livre disso. Todos nós passaremos do maravilhoso ao horrível, do alto ao baixo, do oito ao oitenta, porque a vida é feita de milhares de contrapontos, e jamais, jamais mesmo daríamos valor as coisas boas que nos acontecem se não passássemos por vendavais de momentos ruins. E não foi nada diferente com a com a garota de vestido azul da praça da saudade.

Como eu estava dizendo, as coisas iam muitíssimo bem, até... bom, até deixarem de ir.

Tudo desmoronou do dia para a noite, e ela não pôde acompanhar tamanha mudança. Ela sempre foi do tipo de garota que gostava da calmaria e da plenitude das coisas. Adorava uma chacoalhada, uma mudança de vez em quando, quando ela estava no controle e tinha onde se segurar até os tremores da mudança passarem.

Mas dessa vez não foi bem assim.

A mudança aconteceu e ela ficou no escuro, sem respostas, sem a tal frase que ela esperava tão desesperadamente, sem nada para se apoiar.  As coisas fluíam rumo as ruínas. Para onde quer que ela ela olhava só conseguia avistar destroços de algo que antes era bonito de se ver. 

O olhar da garota do vestido azul da praça da saudade cruzou novamente com o par de olhos do garoto do sorriso bonito e da barba por fazer. Mas dessa vez não houve eletricidade fluindo pelo corpo deles. Não houve borboletas, ou um coração pulsando as pressas. Houve um coração de gelo que não bombeava nada além de brisa fria e olhos opacos e sem vida que não refletiam nada. E quando o garoto do sorriso bonito e da barba por fazer pegou uma das mãos da garota do vestido azul, suas mãos eram frias como as Cordilheiras A, o lugar mais frio onde ninguém jamais pisou, o garoto olhou fundo nos olhos dela e não disse uma única palavra em resposta a frase que ela disse entre sorrisos.

A garota do vestido azul sentiu como se o chão tivesse sido tirado dela.

Doeu no fundo da alma dela.

Ela chorou naquela noite. 

E na seguinte também.

A garota do vestido azul que andava pela praça da saudade escondia segredos e mágoas. Ela se sentiu por tanto tempo dependente de uma frase, de uma pergunta sem resposta. Ela chorou, sentiu raiva e um aperto gigante no peito, tudo por causa de uma frase não dita por um garoto do sorriso bonito e da barba por fazer.

Naquela manhã bonita, o céu sem uma única nuvem combinava com o seu vestido azul.

Ela caminhava distraída até se deparar com um casal e um labrador. Ela se lembrou de um momento feliz de não muito tempo atrás, onde ela ainda podia fazer planos sobre um garoto e um cão que poderiam ter. Morreu de saudades por um instante. Aquele era o lugar perfeito pra isso.

Sentou em um dos bancos da praça da saudade e pensou nos planos e nas promessas desfeitas e na loucura que se tornou sua vida desde então. Pensou no ursinho de pelúcia do qual ela deixou de dormir abraçada só pra não ter que pensar no que não foi. Na calmaria da casa vazia e em quantas vezes ela queimou a comida desde que passou a comandar a cozinha. Pensou no tempo que lhe sobrou para os estudos, nos livros que leu sem ser interrompida, e naquela maldita frase não dita.

Ela ainda sorria pro carteiro, dava bom dia pro padeiro e vez ou outra ria de uma piada que alguém contava. Só as que tinham graça. Mas ainda não conseguia fazer com que seus pensamentos não fossem até ele toda noite antes de dormir. 

As coisas poderiam ter sido bem diferentes, e isso é certo, mas no fundo ela ainda acreditava que tudo na vida tem um propósito e um porque. E cedo ou tarde ela os descobriria. Porque como dizem, é no inesperado que se abrem várias portas. Ta tudo certo, como dois e dois dão cinco.

Então a garota do vestido azul se levantou e seguiu caminhada e fez algo que a muito tempo não fazia. Riu de si.




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