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A Ultima Vez que Escrevo Sobre Você

21:56Huiolla Ribeiro



Era nove de março quando o destino ajeitou para que eles se esbarrassem num universo paralelo chamado internet. Aquele era o ultimo lugar em que a garota de armadura esperava encontrar alguém. Quanto ao garoto, ele nem se quer queria encontrar alguém. 

Ela era uma pessoa corroída pelo seu passado, e ele, um garoto complexo que veio de um lugar não muito longe dali (longe daquela cidade, não da internet). Ela o cativou por ser irritante. Ele a cativou por ser diferente. Ambos se conectaram de uma forma não muito fácil de explicar. Para ela, era simples se abrir com ele. Para ele, era simples sem quem é com ela. Eles se entendiam por não se entenderem, não tinham tanto em comum, ou talvez tivessem muito mais do que imaginavam. Eram bons amigos.

Era quase junho quando ela percebeu algumas rachaduras em sua armadura. Ela pensou em troca-la mas o tempo em que ficaria exposta poderia ser o suficiente para que fosse atingida em cheio por algo pelo qual ela não estava preparada. Poderia ser o fim. Então deixou as coisas como estavam e seguiu em frente.

Ela sentiu algo diferente quando ele disse ter levado uma garota ao cinema. Ele jurou que não foi como ele esperava. Ela fingiu não sentir nada, mas sentia. Seria o monstro verde do ciúme? Não sei. Mas eles não se falaram pelo resto do dia. 

Ele pensou nela naquela noite até cair no sono. Ela também.

Pouco tempo depois as rachaduras se encontravam maiores, mas ela não se importou. Havia algo estranho tomando conta dela. Ela pensava mais e mais no garoto. E ele a tratava como o seu céu. Um dia em meio a uma discussão durante a madrugada - e com madrugada entendam poucos minutos depois da meia noite - ela disse a verdade.

Na verdade o que ela disse foi: "Como você é lerdo! Eu já disse! Porque você não entende?" e ele respondeu algo parecido com: "Mas eu não tô entendendo nada! Explica!" e ela prosseguia dizendo "Ai Meu Deus, eu já disse! Me deixa em paz!" com aquele tom do qual ele denominava como a de uma pessoa "obtusa", e por fim, finalmente ele foi genial em perguntar "Você gosta de mim? É isso o que você está dizendo?", ele não ousaria usar o termo "tentar" no meio da frase. E ela respondeu esclarecendo tudo enquanto revirava os olhos "Aff, deixa pra lá!".

***

Aconteceu no início de agosto, numa livraria. Que lugar melhor pra se iniciar um bom romance do que num lugar onde vários deles estão enfileirados em prateleiras e mais prateleiras, eternizados no papel? 

Ele já estava lá quando ela chegou. Distraído olhando o verso de um livro do qual ela nem se deu o trabalho de descobrir qual era. Estava ocupada de mais reparando em sua barba rala e em seus cabelos que estavam pra cima como em todas as suas fotos. Suas mãos formigaram com vontade de toca-los. Ela se escondeu atrás de uma escada enquanto o observava e pensava em algo genial e bem bolado do qual ela poderia dizer quando estivesse perto o suficiente e depois de muito pensar sobre o assunto foi até ele sendo acompanhada pelo barulho ensurdecedor do seu coração acelerado pela ansiedade e sei-lá-mais-o-que e disse: "E aí, o que tá lendo?". E aí ele levou um pequeno susto e disse: "Deondefoi. quevocê. brotou?" E ela respondeu achando graça da reação dele: "Sei lá, do chão?" E então se abraçaram e ela soube naquele pequeno momento que aquele era o lugar dela. 

Eles foram para o segundo andar daquela livraria. Ele falava sem parar e ela não sabia ao certo como agir, então fez a unica coisa que uma pessoa normal não faria numa situação como esta: Começou a zanzar pra lá e pra cá cada vez mais depressa tocando em todos os livros alcançáveis de todas as prateleiras, lendo seus títulos e se esquecendo de casa um deles em seguida. E ele, a aquela altura já não conseguia acompanha-la e então pararam entre duas prateleiras de livros de medicina, se entreolharam, sorriram e não disseram uma unica palavra. 

Não era preciso.

Ela desviou seu olhar do dele e olhou para as suas próprias mãos. Ele disse algo, ou talvez não tenha dito nada, não sei dizer. De qualquer forma, ela ergueu o rosto e seus olhares se chocaram e tudo a volta desapareceu. Ele aproximava vagarosamente seu rosto do dela, era quase uma tortura. A respiração e seus  batimentos podiam ser ouvidos e então seus lábios se tocaram levemente e se separaram apenas por tempo suficiente pra que um pudesse ver o sorriso nos lábios do outro, e então voltaram a se tocar. E dessa vez rápido e urgentemente, como se um precisasse do outro, como se aquilo fizesse todo o sentido do mundo, como se aquele beijo curasse tudo, e talvez fosse exatamente isso.

Quando se separaram eles não sabiam fazer algo diferente de sorrir. Soube que ela repassou cada detalhe daquele dia pelos meses que se seguiram. Ele também.

Meses depois eles foram juntos ao show da banda favorita dela. Ele odiava barulho, no entanto, a amava. Ela não se importava com o barulho, mas gostava de estar com ele. Por isso faltando poucos minutos para o início do show ele fez uma pergunta da qual a única resposta cabível seria um sim. E foi exatamente o que ela disse em resposta. Dali em diante eles eram um. Sempre foram, mas aquele momento marcou oficialmente o ponto inicial da história. Eles eram a personificação daqueles casais dos livros que todo mundo gostaria ser ao lado de alguém. Eles sentiam uma atração tão forte um pelo outro que era possível ser sentida lá do espaço. O sentimento que emanava deles era reciproco. Perfeito. Dava pra ver pela forma como se olhavam.

Mas nem todos os livros tem o final que a gente espera. Nem todos os livros terminam como os contos de fada, com um beijo de amor eterno a dança e o felizes para sempre. Sabe aqueles livros que tem tudo para ter o final perfeito, mas aí alguém morre ou fica doente ou acontece algo trágico que faz você decididamente parar de ler? Aconteceu bem assim.

Tudo terminou no ano seguinte alguns meses depois. 

As coisas estavam indo bastante bem e da noite para o dia deixaram de estar. Ainda não se sabe o porque, mas sei que ele foi acusado por homicídio culposo. Matou a historia que eles haviam construído, todos os planos, promessas e certezas. Matou o sentimento bonito e tudo o mais que um dia tiveram. E ainda assim não teve a intenção. E não precisamos falar sobre a garota nesse trecho da história.

Agora, revendo tudo dá pra ver que desde o inicio tudo estava fadado ao fracasso. As coisas aconteceram rápido de mais. E se tem uma coisa que o garoto sempre dizia para a tal garota é que tudo o que vem fácil vai fácil. Ela, a principio se recusou a acreditar nele, mas acho que agora, talvez agora mesmo, neste exato momento, tenha se dado conta que ele estava certo. De novo. E ela o odiava por isso. Ela sempre odiou a mania que ele tem de estar sempre certo.

Poderia inventar um final diferente para essa história, poderia inventar que eles se casaram 8 anos depois, se mudaram para alguma cidade do interior do estado, adotaram um cachorro e viveram felizes para sempre. Poderia inventar um zilhão de finais felizes para essa história, mas nenhum deles seria real. Nenhum deles mudaria a realidade. 

A verdade é que caminhos se cruzam o tempo inteiro e quando se cruzam não significa necessariamente que seguirão na mesma linha a partir dali. As vezes as pessoas aparecem, plantam algo bom e se vão. As vezes, pessoas aparecem transformam a sua vida e não ficam. Pode ser que um dia elas voltem, mas não cabe a nós decidir, cabe ao destino. Podemos esperar sentados ou não. Podemos lutar pelo o que queremos ou podemos deixar pra lá quando acharmos que já é hora. Podemos tirar o melhor e o pior dessas situações, mas acredite, nada é em vão, nada é por acaso, nada é para sempre. Um filoso chamado Heráclito de Éfeso já dizia "nada é permanente exceto a mudança e a transformação".  E mudanças podem ser ruins no início, mas um dia as coisas entram em seus eixos e tudo passa a fazer sentido. Não dá pra perder a fé em tudo, não dá pra acreditar que você não tem sorte ou que é uma pessoa ruim e por isso é castigado com esse tipo de situação. Nada é cem por cento alguma coisa. A gente passa por alguns vendavais de vez em quando, mas é apenas pra que possamos nos encontrar. Entender a nós, a nossa vida e as pessoas que estão nela.Tenho acreditado nisso ultimamente, porque não acreditaria?











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